Saúde Mental em tempos de Pandemia: o que sua empresa precisa saber. Confira!

Atualizado: Jan 26

Entrevistamos Wagner Lima, Sócio fundador da MindSelf

1.Qual o impacto que tem percebido na saúde mental dos colaboradores durante esse período de pandemia? Que indicadores usar e como acompanhá-los para entender como anda a saúde mental de nossos profissionais?


O impacto certamente é enorme. A OMS já divulgava há alguns anos que transtornos emocionais e mentais seriam a primeira causa de afastamento do trabalho no mundo a partir deste ano de 2020. E isso, obviamente, não levava em consideração uma pandemia e a necessidade de isolamento social com a proporção e todos os impactos que estamos vivenciando. Mas o fato é que as métricas relacionadas à saúde mental no mundo corporativo pioraram. Houve um aumento dos casos de depressão, dos casos de transtornos de ansiedade, síndrome do pânico, dentre outros, incluindo casos de tentativas de suicídio. Do ponto de vista de indicadores, eu diria que existem aqueles com foco reativo e aqueles com foco preventivo. Do lado reativo estão métricas como o absenteísmo ou o uso do plano de saúde para questões mentais e emocionais (consultas ou tratamentos psiquiátricos ou psicológicos). Mas as métricas mais difíceis são aquelas com foco preventivo. Aqui a recomendação é usar com ainda mais atenção e cuidado, métricas que as empresas já estão acostumadas a medir mas que nem sempre são analisadas de forma mais aprofundada. Aspectos como o clima organizacional e o índice de engajamento dos colaboradores são dois aspectos que, de certa maneira, podem trazer indicativos de que a saúde mental do time pode estar abalada. Entretanto, o grande desafio está para os líderes da organização. Essas pessoas precisam estar ainda mais atentas e preparadas para escutar e perceber sinais de alerta no time e saber como lidar com questões mais sensíveis, ou pelo menos ter um mecanismo estruturado de como buscar ajuda dentro da organização.


2. Que ações acredita que as empresas podem fazer para melhorar estes números – especialmente no cenário atual? E o que elas não devem fazer de jeito algum neste contexto?

Eu poderia afirmar que, de maneira geral, as empresas ainda estão engatinhando sobre como lidar com questões ligadas à saúde mental de seus colaboradores de forma realmente efetiva. O maior desafio é como cuidar preventivamente das emoções dos colaboradores a ponto de evitar doenças, o burnout e o afastamento. Quando pensamos nos cuidados do ponto de vista reativos, a grande maioria das médias e grandes organizações já possui um plano de saúde disponível que conta com apoio médico, psiquiátrico e psicológico. Mas quando pensamos em como evitar que os colaboradores adoeçam emocionalmente, a situação fica mais comprometida. Em termos de ações eu diria que inicialmente há que se fazer um trabalho de conscientização da liderança da importância do assunto e há que se trabalhar em desenvolver um ambiente de abertura e acolhimento para as pessoas se sentirem a vontade para se abrirem e poderem apresentar seus problemas, trazendo a possibilidade de que a pessoa busque por ajuda sem o receio de ser rotulada ou boicotada internamente. Iniciativas como rodas de conversa, palestras de conscientização, acesso mais facilitado a terapias e programas com práticas de meditação e mindfulness, executados por empresas ou profissionais sérios e experientes, são excelentes alternativas para se iniciar esse cuidado preventivo. O que não se deve fazer de jeito algum, na minha opinião, é deixar esse assunto como algo pra ser resolvido exclusivamente pela área médica ou de RH da empresa e não haver o engajamento da liderança. Mas creio que muitas empresas já têm isso claro. Antes da pandemia, a saúde emocional era apenas mais uma das várias preocupações do RH. Durante a pandemia o tema passou a ser preocupação também do board das empresas, tamanho o impacto que poderia trazer para a saúde do próprio negócio.


3. Como enxerga a evolução desse cenário caso as empresas não atuem de forma mais proativa nessa área? Que impactos acredita que possam ocorrer para pessoas e organizações?

Os impactos, em primeira instância, são os relacionados às pessoas. Um aumento no número casos de depressão, ansiedade e de outras patologias relacionadas à saúde mental e, consequentemente, aumento nos índices de Burnout, que leva ao afastamento do colaborador de suas funções profissionais por um período de tempo. Ou, talvez até pior que o afastamento em si, é a baixíssima produtividade do colaborador que enfrenta algum problema mas não busca ajuda profissional. Aqui entra o conceito de presenteísmo, ou seja, a pessoa segue trabalhando, mas ela não consegue se focar, se concentrar e produzir de forma minimamente aceitável. A consequência disso, se não for o Burnout e um afastamento, será uma baixíssima performance e uma demissão no curto ou médio prazo. Para as organizações as consequências disso são devastadoras. Não somente do ponto de vista de custos (aumento de gastos do plano de saúde, erros e retrabalhos, conflitos entre os times, para ficar em três exemplos apenas), e de receita (pela diminuição, por exemplo, da produtividade e da criatividade dos colaboradores), mas também do ponto de vista do impacto de imagem para a empresa, que passa a ser vista como um ambiente ruim de se trabalhar, por exemplo.


4. De que forma ações e programas de meditação e mindfulness podem contribuir para uma reversão desta realidade? Como é possível implementar este tipo de ação por meio de instrumentos remotos?

Nas últimas décadas, as práticas de meditação e mindfulness ganharam relevância na ciência e são milhares de estudos científicos de grandes instituições no mundo (como Harvard, MIT, Stanford, Oxford, UCLA, etc.) pesquisando e divulgando relatórios e papers dos benefícios da meditação no cérebro e na saúde das pessoas. Historicamente as práticas são muito reconhecidas por trazerem o benefício do relaxamento e o controle do stress. Obviamente que por si só já é um grande benefício, aprender a lidar melhor com as pressões, com os conflitos e com a ansiedade do dia a dia, ainda mais nesse mundo absolutamente frenético que vivemos. Mas o relaxamento é apenas um dos “efeitos colaterais positivos” das práticas. Benefícios como melhorar sua capacidade de foco e concentração, desenvolver seu autoconhecimento, trazer mais clareza para que você tome decisões melhores e mais assertivas e aprimorar sua capacidade de empatia e de relacionamentos, são benefícios reais e que certamente fazem toda diferença na vida de qualquer pessoa (consequentemente para a empresa). As empresas que implementarem programas sérios e estruturados de meditação e mindfulness para os colaboradores e que conseguirem estabelecer isso como um hábito para as pessoas, vão experimentar no curto/médio prazo, benefícios para o próprio negócio. E a implementação dos programas pode ser feita com atividades e ações presenciais, mas também utilizando-se da tecnologia para dar acesso remoto a todos na empresa. A experiência desde março por conta da pandemia, provou que as atividades remotas, feitas de forma online e ao vivo, não só tomam menos tempo dos colaboradores, como também possibilitam que muito mais pessoas participem. E não temos notado praticamente nenhum prejuízo na qualidade do que se faz, com raras exceções de algum problema relacionado à qualidade da conexão à internet.

Agora, muito mais importante do que definir se o programa será feito de forma presencial ou remota, é que ele seja adequadamente comunicado internamente, desmistificando os diversos mitos que ainda existem, de forma a atrair as pessoas para as atividades, que ele não tenha qualquer viés ou ligação com esoterismo ou religiosidade e que se tenha o engajamento/apoio da liderança em entender os benefícios e incentivar seus times a participarem.


5. Em um cenário de retomada, que riscos à saúde mental vocês enxergam e como as organizações podem – e devem – se preparar para minimizá-los?


Minha visão, além de todos os cuidados e protocolos básicos que precisam ser seguidos para a segurança dos colaboradores, é que se estabeleça um diálogo aberto e franco com as pessoas e que se crie um ambiente em que se tenha, efetivamente, liberdade para tratar dos assuntos de ordem emocional. Obviamente que isso não se constrói da noite para o dia, é um processo de conscientização da liderança e o exemplo deve vir da alta direção da empresa. As pessoas estão ansiosas para a volta a seus postos de trabalho, às suas rotinas, às convivências presenciais, etc., mas não dá pra se imaginar que essa volta seja de forma repentina à maneira que era antes, no mesmo ritmo que era antes. Cada empresa, baseado em sua própria cultura, vai ter que pensar e encontrar a melhor maneira de acolher de volta os colaboradores para seus escritórios físicos, permitir que as pessoas ganhem confiança de retomar suas atividades de forma gradativa e sem imposições e, mais importante, ter mecanismos formais para que se busque ajuda sempre que necessário, inclusive promovendo campanhas de conscientização de que não é errado ou feio buscar apoio por questões emocionais, pelo contrário. Se as pessoas não se sentirem confortáveis nesse sentido, as consequências para as empresas serão de mais afastamentos e de mais adoecimento emocional.





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