Tendências , desafios e a evolução do setor de o&m eólico no brasil

Atualizado: Jan 26

Entrevista com Armando Costa Rego da Arthwind

Armando Costa Rego da Arthwind

1) Na sua visão, como você enxerga a evolução do mercado de O&M de

energias renováveis no Brasil em comparação com outros mercado de O&M

internacionais mais maduros?

O mercado brasileiro possui particularidades que a comparação "like to like"

pode ser injusta. E para fazer justiça à capacidade das empresas que operam em

nosso mercado, a complexidade logística, tributária, cambial e culturais, já

trazem desafios que poucos mercados maduros estão expostos. Portanto,

estes fatores podem causar a falsa impressão de que as empresas que atuam em

outros mercados, como USA e Europa estão muito na frente na capacidade de

execução, o que posso discordar. Agora no que diz respeito ao uso de

tecnologias, o mercado vem experimentando, de forma até recente, a aplicação de

soluções que nos nivelam a qualquer mercado de O&M do mundo, exemplo claro,

é a forma como estamos percebendo a aceitação de soluções, como a de drones

autônomos na inspeção de pás, em todos os níveis do mercado, sejam OEM,

proprietários com contratos FSA, clientes que estão em transição para o in-house.

As plataformas que estão sendo instaladas no Brasil, aeros de potencial nominal

+4MW, sem duvidas irão acelerar a adoção de tecnologias com alto valor

agregado, o que nos colocará em condições de igualdade e ser benchmarking para

outros mercados.



2. Quais alguns exemplos de novos serviços, tecnologias e inovações que estão

surgindo para O&M eólico e gestão de ativos de energia renovável? Pode citar

alguns?

Sou fã da tecnologia aplicada ao nosso setor, como todos sabem, e acompanho de

perto este mercado. Levando um pouco para nossa área de especialidade, pás

eólicas, temos acompanhado o surgimento de tecnologias que visam o

monitoramento do ativo, como é o caso da Ping (Australiana) que tem o objetivo

de detectar defeitos em pás através de sensores de emissão acústica, e também

da Aerones, empresa escandinava que traz robótica para a medição de sistema de

LPS.

Do nosso lado, este ano lançamos o ArthBot, que se trata de uma solução

robótica de inspeção interna das pás, para trazer uma maior visibilidade da

condição destes ativos. No que diz respeito a plataformas on-line, junto a nossos

parceiros tecnológicos, estamos digitalizando toda a cadeia de valor de

manutenções de pás, para trazermos ao mercado, um produto único que dê uma

projeção orçamentária e priorização de itens a serem reparados, que sem dúvida é

ondem podemos encontrar um universo de oportunidades com o aumento da

eficiência destas operações.

Também estamos viabilizando o uso de tecnologias de realidade aumentada e

conectividade, como o RealWear que pode trazer uma conexão direto de campo

para com a engenharia no suporte as atividades de campo.


3. Como acha que essas tendências podem chegar ao Brasil? Quais

precisariam ser “tropicalizadas” para nosso contexto?

Chegará naturalmente, através de parcerias sólidas com empresas locais como a

que fizemos com a ProDrone há 3 anos. As soluções mencionadas acima não

necessitam tropicalização, a maior barreira segue sendo como encaixar no OPEX

das empresas que ja possuem um orçamento operacional, este sim que nunca foi

tropicalizado ou atualizado a necessidade real dos ativos.

Conforme os contratos de O&M, ainda na prática muito ditado pelos OEM´s,

forem se flexibilizando, teremos uma grande oportunidade de colocar em prática

o uso destas tecnologias demonstrando verdadeiros ganhos na eficiência dos

parques eólicos no Brasil.


4. Que tipo de benchmark tem sido implementado aqui no Brasil para O&M

services diante dos novos desafios e impactos que a pandemia trouxe?

Sem duvida a pandemia derrubou certas crenças que positivamente vieram para

aumentar a comunicabilidade do setor. Com o home-office consegui notar um

maior engajamento de decision makers que muitas vezes dividia seu tempo entre

deslocamento, reuniões presenciais, congressos, e agora conseguimos otimizar

reuniões on-line, ter um maior contato com os times de execução, e agilizar

processos de decisão que muitas vezes eram morosos e tardios.

Isto reflete diretamente na atenção ao que é mais importante: Geração de energia

segura e sustentável mesmo com todos os desafios impostos pela pandemia.


5. Em linhas gerais, como tem sido as relações, trabalhos e alinhamentos com

clientes diante de novas exigências, protocolos e expectativas que surgiram nos

últimos 06 meses?

Tudo gira em torno da prevenção, e nosso setor já possui uma maturidade quanto

a tudo que se refere a saúde e segurança dos colaboradores. No inicio foi

pânico, muitas decisões que foram necessárias no momento, como

desmobilizações de times de campo, menos contato entre os times de

execução com a gestão dos parques, me lembro ter durado 3 semanas de

incertezas e o ponto mais impactante, foi que não havia um padrão nos

protocolos. Com o passar de 3 a 4 semanas, notamos que o mercado foi se

alinhando com protocolos robustos, que vigoram até hoje, e felizmente tivemos

muitas experiências positivas nestes últimos 06 meses, reflexo de decisões

assertivas e engajamento de todos os níveis de gestão das empresas do setor.

Infelizmente não podemos afirmar que nunca mais passaremos por isto, mas

certamente estes protocolos devem ser envolvidos no planejamento de O&M

daqui para frente, e as empresas que procedimentalizaram as ações e

conscientizaram seus colaboradores, certamente estarão muito mais preparadas

para manter um ambiente sustentável de operação e manutenção em tempos

difíceis.


6. Quais enxerga hoje, após uma nítida evolução do setor no Brasil, os

principais gargalos ainda presentes em O&M e que devem ser endereçados pelo

setor?

Um ponto que estamos trabalhando para contribuir, é com a digitalização das

atividades, entrega de resultados e processos de manutenção. Quando dizemos

"digitalização", não estamos falando de criar um web-storage, "digitalizar"

documentos antigos, se trata de algo mais abrangente. Cito como exemplo, os

processos de abertura de ordens de trabalho nos parque eólicos onde ainda

vemos muitos processos sendo feito de forma manual e dependente de horário de

expediente dos colaboradores. Hoje existem campanhas de trabalho que

perdemos em média 1 hora/time/dia para a execução destes processos.

Temos que ser menos dependente de papéis, assinaturas e passar estes processos

para ambientes tecnológicos simples via aplicativos, chaves de acesso, onde da

base da turbina, seguindo atividades planejadas, um colaborador possa emitir sua

própria ordem de serviço em 2 minutos e subir para execução. Do nosso lado,

temos trabalhado como comentamos na segunda pergunta, na digitalização do

controle das horas de execução dos retrabalhos em pás eólicas para nossos

clientes, como não atuamos diretamente nesta atividade, somente criamos

protocolos técnicos e de qualidade, temos encontrado ineficiências

de 20 a 25% nas atividades auditadas, isto quando não temos desvios

de +100%. É impossível trabalhar de forma planejada com desvios desta

magnitude, que indiretamente impactam a geração e o OPEX dos operadores.


7. Que papel o governo e as regulações tem desempenhado para ajudar as

inovações do setor a “deslancharem”? E onde pode efetivamente melhorar?

A crença de que no Brasil tudo é burocrático, tem feito de que muitas

oportunidades, investimentos, programas de ajudas governamentais não sejam

facilmente acessados, por mais que existam e estejam disponíveis. Quando se

trata de inovação tudo gera em torno de pessoas capacitadas, acesso a

tecnologias e investimento. Nestes últimos meses temos visto algum movimento

de apoio ao crowdfunding (investimento online), mas ainda temos um ambiente

de pouca captação econômica. O Brasil possui um grande potencial para

desenvolvimento de tecnologias pela diversidade da matriz energética, e

potenciais sinergias com outras industrias. Fomentar hubs de tecnologia onde

possa concentrar um numero diversificado de industrias, pode influir

positivamente. Nós estamos alojados hoje no Parque Tecnológico de

Sorocaba, e buscamos sempre criar sinergia com empresas de outras industrias,

como por exemplo, no desenvolvimento do nosso Arthbot de inspeções internas,

fomos atrás de profissionais de robótica da área automotiva, para buscar frações

do conhecimento do desenvolvimento de carros autônomos que possam ser

necessários na autonomia de nosso robô.

O ambiente nestes hubs são altamente contagiante, mas ainda falta muito o que

evoluir a nível de apoio governamental a nós empreendedores que competimos

com grandes empresas do mundo.



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